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TODO BRASILEIRO PRECISA ESCUTAR TOM ZÉ


Tom Zé é um grande artista. E no conceito verdadeiro da palavra: artista é aquele que percebe intensamente o mundo e se expressa na mesma proporção.Tom Zé traduz para nós, de forma anárquica e irreverente, essa realidade que nos chega adormecida e falsificada através de telas e lentes. Tom Zé é aquela sacudida seguida do grito: "ACORDA!"

Esse fim de semana ouvi dois discos do Tom Zé: "Jogos de Armar" de 2003 e "Estudando o Pagode" de 2005. Fazia tempo que eu não ouvia esses discos e, como das outras vezes, eles me trouxeram inúmeras reflexões, ligadas ou não às suas temáticas específicas (sim, porque os discos do Tom Zé têm sempre um tema que permeia toda a obra). Isso me fez lembrar que o Tom Zé, além de entreter pela qualidade da música, ainda cumpre a principal função de um artista: fazer pensar.

Interessante como a mídia se volta sempre para um tipo de música que nunca privilegia a reflexão. Povo que pensa é um perigo para quem domina. Tom Zé vem na contramão desse ideia  fazendo pensar e, mais importante, mostrando um Brasil que está cada vez mais apagado da mídia: O Brasil que canta, que dança, que ama e que pensa. Pensa tanto que faz até autocrítica.

Então, para salvar a cultura brasileira, ouçamos Tom Zé. Vamos levar Tom Zé para as escolas. Os Jovens precisam conhecer esse artista. Meu filho ouve Tom Zé, e gosta. Não me venham com esse papo de que a juventude não entende esse tipo de música. Nem todo jovem é burro.

Essa semana vi uma notícia que me aborreceu: um retardado atirou um copo de cerveja no Tom Zé no show do Circo Voador. É o Brasil dos ignaros, a massa de manobra lutando contra o país que pensa. Mais um alerta para que levemos a sério nossa cruzada contra a ignorância. Todo brasileiro precisa escutar Tom Zé.

Eis os links para baixar alguns discos do homem:

http://www.tomze.com.br/
http://thepiratebay.sx/torrent/4094828/Tom_ZA_

E CRISTO CHOROU SOBRE OS PALÁCIOS DO VATICANO



Andando pelas comunidades eclesiais de base constituídas  de ribeirinhos da Amazônia, nos limites com o Acre, lá onde viceja uma Igreja pobre e libertadora, ouvi de um líder comunitário, bom conhecedor da leitura popular da Bíblia, a seguinte visão que ele pretende ter sido verdadeira.

Estava um dia a caminho do centro comunitário, quando se viu transportado, não sabe se em sonho ou em espírito, aos jardins do Vaticano. Viu de repente um Papa, encurvado pela idade, todo de branco, cercado pelos seus principais cardeais conselheiros. Faziam o costumeiro passeio após o almoço, andando pelos jardins floridos do Vaticano.         

De repente, o Papa vislumbrou, a uns poucos metros de distância, a figura do Mestre. Este sempre aparece disfarçado seja como jardineiro para Maria Madalena seja como andarilho para os jovens de Emaús. Mas o sucessor de Pedro, afastando-se do grupo de cardeais, com fino tato,  identificou logo o Ressuscitado. Ajoelhou-se e quis proferir a profissão de fé que fez Pedro ser pedra, pois sobre esta fé  se constrói sempre a Igreja :”Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”.

Nisso foi atalhado por Jesus. Olhando o palácio do Vaticano ao longe e o perfil dos prédios da Santa Sé, disse Jesus com voz entristecida: ”Não te bendigo, sucessor de Pedro,  o pescador, porque tudo isso não foi inspirado por meu Pai que está nos céus mas pela carne e pelo sangue. Digo-te  que não foi sobre estas pedras que edifiquei minha Igreja, porque temia que então as portas do inferno poderiam prevalecer contra ela”.

O Papa ficou perplexo e olhou o rosto do Senhor. Viu que caiam-lhe furtivamente duas lágrimas dos olhos. Lembrou-se de Pedro que o havia traído duas vezes e que, arrependido, chorara amargamente. Quis proferir algumas palavras, mas estas lhe morreram na garganta. Começou também ele,  o Papa, a chorar. Nisso o Senhor desapareceu.

Os Cardeais ouviram as palavras do Mestre e se apressaram para amparar o Papa. Este logo lhes disse com grande severidade: ”Irmãos, o Senhor me abriu os olhos. Por isso, as coisas não podem ficar como estão. Temos que mudar e mudar em muitas coisas. Ajudem-me a realizar a vontade do Senhor”.

O Cardeal camerlengo, o mais ancião de todos, afirmou: ”Santidade, iremos, sim, fazer alguma coisa conforme a vontade do Mestre  e segundo a tradição dos Apóstolos. Amanhã reuniremos todo o colégio cardinalício presente em Roma e, invocando o Espírito Santo, decidiremos como vamos proceder, consoante as palavras do Senhor”.

Todos se afastaram pesarosos, vindo-lhes à memória aquelas cenas do Novo Testamento que se referem a Jesus chorando sobre a cidade santa, que matava seus profetas e apedrejava os enviados de Deus e que se negava a reunir seus filhos e filhas como a galinha que recolhe os pintinhos debaixo de suas asas.

Um e outro entretanto, comentavam: ”irmãos, sejamos realistas e prudentes, pois nos toca viver neste mundo. Precisamos de edifícios para a Cúria e o Banco do Vaticano para recolher os óbulos dos fiéis e cobrir os nossos gastos. Podemos negar essas necessidades? Mas vejamos o que o Espírito nos inspirar”.

No dia seguinte, quando os cardeais se dirigiam à sala do consistório, graves e cabisbaixos, o secretário do Papa veio correndo e lhes comunicou quase aos gritos: ”O Papa morreu, o Papa morreu”.

Nove dias após, celebraram-se os funerais com toda a pompa e circunstância como manda a tradição.  Vindos de todas as partes do mundo, os cardeais desfilavam com suas vestes vermelhas e luzidias, quais príncipes de tempos antigos. Depois sepultaram o Papa.

E ninguém mais se lembrou das palavras que o Mestre havia dito e que eles escutaram. E tudo continuou como antes nos palácios do Vaticano.

Post Scriptum: o Espírito Santo fala pelos sinais dos tempos. Um desses sinais são os escândalos ocorridos  que exigem reformas para resgatar a credibilidade da Igreja. Será que os cardeais no Conclave saberão ler esse sinal e dizer como no primeiro Concílio em Jerusalém: ”Pareceu bem a nós e ao Espírito Santo tomar tais e tais decisões”? Caso contrário, o Mestre continuará chorando sobre as pedras do Vaticano.

 Leonardo Boff, teólogo e escritor

A ÁGORA CARIOCA


(Publicado originalmente no jornal O Globo, edição de 4/6/2012)

Vivemos tempos de uniformização dos costumes, fruto do tal de mundo globalizado. Em cada canto desse mundaréu, ligado por redes transnacionais de telecomunicações, as pessoas assistem aos mesmos filmes, vestem as mesmas roupas, ouvem as mesmas músicas, falam o mesmo idioma, cultuam os mesmos ídolos e se comunicam em, no máximo, cento e quarenta toques virtuais. Nessa espécie de culto profano, em que a vida cotidiana é regida pelos rituais em louvor ao mercado que não é o de Madureira, o bicho pega e as ideias morrem, como outro dia morreu de morte matada o acento em ideia, sem choro nem vela e sem a dignidade de um samba do Noel.

Eu, que trabalho com adolescentes e adultos jovens, percebo que as crenças e projeções de futuro da rapaziada foram substituídas pelo pânico cotidiano - do assalto e das doenças, no âmbito pessoal, às catástrofes ambientais, na esfera coletiva. Cria-se uma lógica perversa: Como posso morrer de bala perdida, pegar gripe suína ou sucumbir ao aquecimento global, preciso viver intensamente o dia de hoje.

Ocorre que essa valorização extremada do tempo presente é acompanhada pela morte das utopias coletivas de projeção do futuro. Não há mais futuro a ser planejado. Somos guiados pelos ritos do mercado e abandonamos o mundo do pensamento, onde se projetam perspectivas e são moldadas as diferenças. Restam hoje, nesse desalento, duas tristes utopias individuais, em meio ao fracasso dos sonhos coletivos - a de que seremos capazes de consumir o produto tal, cheio de salamaleques, e a de que poderemos ter o corpo perfeito.

Transformam-se, nesse tempos depressivos, os shoppings e as academias de ginástica nos espaços de exercício dessas utopias tortas, onde podemos comprar produtos e moldar o corpo aos padrões da cultura contemporânea - o corpo-máquina dos atletas ou o corpo esquálido das modelos. É a procura da felicidade que não tem, como na esquecida e sábia canção natalina. E tome de caixinhas de Prozac no sapatinho na janela.

É aí que localizo, na minha cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o espaço de resistência a esses padrões uniformes do mundo global: O botequim. Ele, o velho boteco, o pé-sujo, é a ágora carioca. O botequim é o país onde não há grifes, não há o corpo-máquina, o corpo em si mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais.

O boteco é a casa do mau gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemoração do gol, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. É a República de fato dos homens comuns.

É nessa perspectiva que vejo a luta pela preservação da cultura do boteco como algo com uma dimensão muito mais ampla do que o simples exercício de combate aos bares de grife que, como praga, pululam pela cidade e se espalham como metástase urbana.

A luta pelo boteco é a possibilidade de manter viva a crença na praça popular, espaço de geração de ideias e utopias - fundadas na sabedoria dos que têm pouco e precisam inventar a vida - que possam nos regenerar da falência de uma (des) humanidade que se limita a sonhar com o tênis novo e o corpo moldado, não como conquista da saúde, mas como simples egolatria incrementada com bombas e anabolizantes cavalares. O botequim é, portanto, o antishopping center, a recusa mais veemente ao corpo irreal dos atletas olímpicos ou ao corpo pau-de-virar tripa das anoréxicas, sintomas da doença comum desse mundo desencantado: metáforas da morte.

Ali, no velho boteco, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, no mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o protetor e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o Homem é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória - a capacidade de sonhar seus delírios, festejar e afogar suas dores nas ampolas geladas feito cu de foca. É onde a alma da cidade grita a resistência.

Esse combate, amigos, é muito mais significativo do que imaginam os arautos modernosos e seus programadores visuais. Botequim, afinal de contas, tem alma, é entidade, terreiro carioca, feito os trapiches e sobrados do cais do porto em noite de lua cheia.

Luiz Antonio Simas do Histórias Brasilieras

DIVAGANSOS


Apropriei-me de um termo cunhado pelo meu amigo e xará lá de Portugal, o Ganso, para o título desse post: "Divaganso", segundo a definição desse nobre exemplar da minha espécie: "A arte de divagar de um ganso."

Pois então; o que quero agora é divagar, junto a vocês, meus amigos e fiéis leitores, sobre a função desse blog em minha vida.

Escrever, para mim, sempre foi um grande prazer. Uma coisa que, desde criança, me deixa feliz é poder mostrar aos outros as coisas que escrevo. Desde as redações no colégio até as crônicas que eu mandava para jornais, sempre gostei de expor o que penso escrevendo. Aliás, me expresso muito melhor dessa forma do que com a fala. Se considerar qualquer forma de expressão corporal, então, como dança, etc. (isso mesmo tendo participado de diversos grupos de teatro), aí sim sou um verdadeiro desastre. Então me resta a escrita e em bem menor proporção, a música, para me comunicar com o mundo. O blog surgiu justamente com esse propósito: como um canal de comunicação onde eu poderia publicar minhas opiniões sobre os mais variados assuntos e receber de vocês o feed back dessas opiniões e quem sabe iniciar alguns debates.

Nunca pensei em usar o blog como algumas pessoas por aí, para auto-promoção ou até mesmo para propaganda enganosa. Não quero parecer melhor do que sou e nem acho que minhas opiniões sejam as mais acertadas sobre todos os assuntos que discuto. É por isso que o espaço de comentários está constantemente aberto, sem moderação inclusive (só não chinguem minha mãe, porque ela não tem nada a ver com isso).

Portanto, acho que chegou a hora de fazer um balanço. Em setembro próximo o blog completa três anos de estrada. Publiquei 88 posts e consegui arregimentar 36 seguidores no Google Friend Connect, fora os que visitam o blog esporadicamente. Parece pouco se compararmos com outros, mas para mim é muito. Ainda mais se eu considerar não a quantidade, mas a qualidade das pessoas que não se importam em aparecer alí a direita como meus seguidores.

Falei de tudo um pouco aqui no Boteco. Divulguei trabalhos que acho importantes e atualizo todos os dias o blogroll ali da seção "O Boteco Recomenda". Me gusta. Me dá prazer imaginar que posso estar levando para alguém uma informação que aquela pessoa talvez não teria acesso. Gostaria, inclusive, que os leitores participassem mais... Há algum tempo, botei ali em baixo um contador de visitas. Mas quase nem fico acompanhando. Uma pessoa leu? Então já é lucro. Uma pessoa comentou? Lucro dobrado. Sempre respondo aos comentários, seja para debater ou simplesmente agradecer a visita.

Mas agora, vamos ao ponto. Vocês devem ter notado que os posts estão cada vez mais raros por aqui. O Boteco passa por uma crise existencial. Assumi inúmeros compromissos comigo mesmo e com outras pessoas, o que me forçou a deixar o blog um pouco de lado. Mas acho que vocês não merecem. A nova resolução tomada por aqui foi transformar o blog em espaço de debate para os temas que venho estudando na faculdade de História. Assim, estaria unindo o útil ao agradável. Mas antes de impor essa mudança, gostaria de saber de vocês o que acham. Posso aguardar um feed back? Se ninguém disser nada é porque concordam... Depois não digam que eu não avisei. Dou-lhe uma, dou-lhe duas...

Abraço a todos.

A SÍNDROME DE NEUENDORF E A DIREITA RAIVOSA, DO HISTÓRIAS BRASILEIRAS

Definitivamente está na ordem do dia, sobretudo entre certos segmentos da classe média alta e das elites endinheiradas do país, manifestar uma pedante aversão ao povo brasileiro. Chamo isso de "síndrome de Neuendorf". Explico: Kevin Neuendorf foi o chefe da delegação dos Estados Unidos durante os jogos panamericanos de 2007, realizados no Rio de Janeiro. O Mister Neuendorf chocou muita gente ao aparecer para uma entrevista coletiva com um cartaz onde se lia: "Welcome to Congo". Alguns brasileiros ficaram profundamente ofendidos com o gringo que, cheio de arrogância, nos comparou ao país da África.

Escrevi na ocasião um texto em que, provocativamente, concordei com o mister e afirmei que somos de fato  o Congo. Alguns acontecimentos recentes, muito ligados aos desdobramentos da campanha eleitoral de 2010, escancararam a existência de uma elite preconceituosa, nefasta,  assustadoramente moralista e potencialmente fascista. Retomo portanto, por considerar urgente e atual, alguns argumentos que utilizei à época para afirmar com orgulho que o Congo é aqui. 

Somos o Congo porque vieram de lá, da região do Congo-Angola, só no século XVII, cerca de 700 mil africanos para trabalhar nas lavouras e minas do Brasil Colonial. Nós, os brasileiros, somos, portanto, congos. Somos também jalofos, bamuns, mandingas, bijagós, fantes, achantis, gãs, fons, guns, baribas, gurúnsis, quetos, ondos, ijexás, ijebus, oiós, ibadãs, benins, hauçás, nupês, ibos, ijós, calabaris, teques, iacas, anzicos, andongos, songos, pendes, lenges, ovimbundos, ovambos, macuas, mangajas e cheuas.

Todos estes acima mencionados são grupos de africanos que chegaram nessas praias com seus valores, conjuntos de crenças, costumes e línguas - culturas, enfim - para, ao lado de minhotos, beirões, alentejanos, algarvios, transmontanos, açorianos, madeirenses e milhares de comunidades ameríndias, civilizar o Brasil.

Eis que agora está rolando uma certa moda - que faz a alegria dos descolados iconoclastas e dos apóstolos do liberalismo mais tacanho -  de atribuir aos próprios africanos a responsabilidade sobre a escravidão. Todo mundo palpita sobre a história da África, mete o bedelho sem conhecimento de causa e, nesse rame-rame, tem gente dizendo que nós nunca fomos racistas e que Monteiro Lobato comparava Tia Nastácia a uma macaca beiçuda por uma questão de afeto. Sugiro que esses papudos leiam Silvio Romero e Oliveira Vianna, dois intelectuais respeitados em antanhos.

Silvio Romero, ao refletir sobre o problema brasileiro no início do século passado, sugeriu que a única salvação do país era torcer para que a miscigenação se fosse processando com o aumento contínuo do sangue branco. Chegou a profetizar que (se a miscigenação fosse estimulada) a superioridade do sangue branco prevaleceria e no ano 2000 não haveria mais traços negróides no nosso povo. Clarear o brasileiro, eis a solução do nobre intelectual.

Oliveira Vianna, por sua vez, escreveu um livro outrora muito respeitado, que apaixonou gerações de leitores, chamado Evolução do povo brasileiro. Segundo este autor, a salvação possível do Brasil era a nação embranquecida. Para ele, a imigração européia, a fecundidade dos brancos , maior do que a das raças inferiores (negros e índios ), e a preponderância de cruzamentos felizes, nos quais os filhos de casais mistos herdariam as características superiores do pai ou da mãe branca, garantiam um futuro brilhante e branquelo ao Brasil.

O fato é que em  pleno 2010 a irresponsabilidade de uma direita rancorosa escancara a existência de brasileiros que sentem verdadeiro nojo do nosso povo, execram o Brasil  e guardam no fundo de suas almas o acalentado sonho que Romero e Vianna ousaram expressar. São aqueles que nutrem verdadeiro pânico de lembrar que vivem num país mestiço, em larga medida civilizado pela África e dotado da cultura popular mais rica e múltipla que o mundo conhece.

São brasileiros que marcharam com Deus pela liberdade em 1964, mandam os filhos para  intercâmbios nos EUA, Austrália e Europa em busca de valores supostamente civilizados,  vivem encastelados em condomínios luxuosos, acham que a empregada doméstica deve vestir uniforme branco e subir pelo elevador de serviço, não gostam de pretos, botam fogo em índios, não respeitam as religiosidades afro-ameríndias, dizem que samba é coisa de gentinha, frequentam compulsivamente shoppings centers, gastam num jantar o que pagam em um mês para os empregados, vibram quando a polícia executa moradores de favelas e criam filhos enfurecidos e preconceituosos que saem de noitadas em boates da moda para surrar pobres, gays e garotas de programa nas esquinas das grandes cidades.

Essa gente mesquinha não se conforma com o Brasil que vive, qual o Congo,  nos maracatus, nos moçambiques, na taieira, na folia de são Benedito, no candomblé de angola, nas cavalhadas, no terno-de-congo, no batuque do jongo e na dança do semba.

Somos o Congo porque batemos tambor, batemos cabeça, dançamos e rezamos como lá. Somos o Congo e somos a África porque somos o país de Zumbi, Licutam, Ganga- Zumba, Luiza Mahin, Bamboxe Obitiku , Felisberto Benzinho, Cipriano de Ogum, Leônidas da Silva, João da Baiana, Donga , Pixinguinha, Candeia, Mãe Senhora, Mãe Aninha, Tata Fomutinho, João Candido, Osvaldão, Marighela, Martiniano do Bomfim, Solano Trindade, Silas de Oliveira e de tantos outros heróis civilizadores.

Urge afirmar, contra os preconceitos mais mesquinhos, o Brasil que acalentamos - o  nosso Congo de macaias, aldeias, botequins, sambas, calundus, jongos e portugueses fados. Com a  proteção de Zambiapungo, de todos os inkices de Angola e dos ancestrais do samba.

Via http://hisbrasileiras.blogspot.com/ do meu cumpadi Luiz Antônio Simas

VILA AMERICANA! COMOÇÃO DE MINHA VIDA....

Na foto, vista parcial da Igreja de São Miguel Arcanjo e Santa Luzia na Vila Americana.



A Vila Americana é um bairro de Volta Redonda muito especial para mim. Não é o lugar em que nasci, apesar de eu sempre dizer que sou nascido e criado lá. Nem foi o primeiro lugar em que vim morar quando cheguei à cidade, em 1977, aos quatro anos de idade. Morei antes no Eucaliptal. Mas falo com orgulho da Vila Americana como o meu ponto de origem porque até chegar lá o único mundo que eu conhecia era o interior da minha casa, sob a proteção da minha mãe e do meu pai e a cumplicidade do meu ainda único irmão, Ricardo. Cheguei na Vila Americana aos seis anos e de lá só fui sair (mais ou menos) aos trinta e dois.


Eu saí da Vila Americana, mas a Vila Americana nunca saiu de mim. Nós, que tivemos a honra de morar nesse pedaço especial da cidade, espremido entre a linha de trem e o Rio Paraíba, aos pés do grande morro que separa nosso bairro do Santo Agostinho e que hoje abriga os complexos da Caviana e Conquista, temos uma cumplicidade no olhar e na fala, uma forma de comunicação que só quem é da Vila Americana entende.

Sempre que encontro um antigo amigo de lá, vêm as lembranças da Vila Americana da nossa época. E é estranho isso, pois sempre falamos com um certo saudosismo de coisas que, em sua maioria, ainda estão lá: A Escola Municipal John Kennedy; o Ginásio do J. B. de Athayde, o Clube do Flamenguinho (esse nem uma sombra do que já foi); o Campo do Americano (ficou no passado mas é vivo na memória de todos. Até meu pai foi um dos "craques" do Americano F. C.); o Bar do Carlão (o bar não, mas o Carlão ainda tá lá, graças a Deus, firme e forte); as festas em que entrávamos sem convite, todo o sábado, no Clube do Saae, a "Barraca do Teleco" nas festas da igreja, os Loucos Pela Arte... tudo isso e as pessoas envolvidas ainda estão por lá, nós é que não estamos mais. E não falo isso com mágoa não, pô! A vida segue, as coisas mudam, mas dói um pouquinho o coração ver que a Vila Americana mudou demais.

As novas gerações têm uma relação diferente com a vida em comunidade. A sociedade ficou mais individualista. Ainda bem que o pessoal que viveu e cresceu naquela época, vira e mexe, toma algumas iniciativas para mostrar a moçadinha de hoje o que é um bairro que é quase uma família.

Pois então, esse blá-blá-blá todo foi para falar para vocês da mais nova idéia em que meus irmãos da Vila Americana destemidamente se lançam e eu, desde já, abraço com entusiamo: a fundação de um bloco de carnaval no bairro.
Pois é, recebi na tarde chuvosa deste domingo um telefonema do amigo-quase-irmão Borginho dando conta da fundação do bloco, das figuras envolvidas na empreitada, dos preparativos e me convidando para ser o puxador do samba. Lisonjeado e feliz, aceitei na hora. Estaremos nos reunindo amanhã (29) para definirmos o furdunço. Peço já a proteção do Arcanjo Miguel, nosso padroeiro e a orientação de Oxóssi. Oke Arô, meu pai.
Aguardem em breve novas notícias do bloco.

Inté.

CARTA ABERTA AOS MEMBROS DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Retrato do autor no terreiro de Mãe Deda. De calças curtas e em seu habitat natural.
Senhores Deputados,

Foi com profunda preocupação que recebi a notícia de que o Deputado e pastor evangélico Edson Albertassi, membro dessa casa, apresentou um projeto com o objetivo de anular a lei que declara a Umbanda e o Candomblé bens imateriais do Estado do Rio de Janeiro. O mesmo parlamentar tem, sistematicamente, apresentado projetos de lei que atacam frontalmente as crenças afro-brasileiras e ameríndias em nome do que ele mesmo chama de conduta cristã.

Em um contexto em que demonstrações de intolerância religiosa se tornam cada vez mais costumeiras, a proposta do cruzado-legislador com sede de guerra santa se configura como ameaça aos princípios da tolerância e do respeito às diferenças, elementos básicos para o convívio fraterno da comunidade.

Certa feita escrevi um texto sobre a religiosidade brasileira e a relação de nosso povo com as divindades. Cito alguns trechos, nesse momento em que nossos ritos sofrem toda sorte de ataques, do que então expressei:

"Somos, os brasileiros, filhos do mais improvável dos casamentos, entre o meu compadre Exu e a Senhora Aparecida - a prova maior de que o amor funciona. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.

Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré - a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo.

Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema.

Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo - a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil."

Escrevi isso porque, senhores deputados, nasci e cresci dentro de um terreiro de macumba. Falo dessa procedência com orgulho tremendo. Minha avó era mãe de santo na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, versada nos segredos da jurema e da encantaria. Fui, por isso mesmo, batizado nos conformes da curimba - protegido pelo caboclo Pery e pelo Exu Tranca Rua das Almas e oferecido aos cuidados da lua velha, num terreiro grande de Nova Iguaçu.

Tive uma infância alumiada pelo rufar dos tambores brasileiros e pelo alumbramento com os caboclos de pena e os marujos e boiadeiros da minha macaia querida. Quem viu, viu - e sabe do que eu falo.

Em um certo momento busquei as raízes mais profundas. Fui ao candomblé, me iniciei, recebi um cargo, cantei em iorubá e conheci a religiosidade afro-caribenha. Em meu peito, todavia, continuou batendo forte a virada dos caboclos do Brasil. De mim, que atravessei o mar só para ver a juremeira, isso ninguém tira !

Conversei com Seu Zé; recebi conselhos de Seu Tranca Ruas; vi a dança de guerra de Seu Tupinambá; fui seduzido pela beleza de Mariana e pela saudade de seu navio; temi a presença de Seu Caveira; cantei a delicadeza da pedrinha miudinha; respeitei o cachimbo velho de Pai Joaquim; me emocionei quando Cambinda estremeceu para segurar o touro bravo e amarrar o bicho no mourão do tempo.

É por isso, pelo meu encanto pela Mãe d´Água, pelo temor amoroso ao caboclo Japetequara - veterano bugre do Humaitá - pela reverência aos que correram gira pelo norte, que me emociono com os santos brasileiros, pretos e índios como nós - por amor ao Brasil ! Amor bonito e dedicado, feito o cocar de Sete Flechas e o diadema de Seu Sucuri no limiar das luas.

É por tudo isso ainda, senhores, que afirmo: Não queremos converter e não queremos ser convertidos. Queremos crer apenas que o Pai maior, em Sua sabedoria, revelou-se a cada povo trajando a roupa que lhe pareceu mais conveniente para que os homens o reconhecessem, feito Zambiapungo e Olorum nos infinitos e Tupã nas matas.

Os deuses que vieram dos porões dos tumbeiros e das florestas do Brasil amenizaram séculos de dor e sofrimento e forjaram a armadura da resistência e da dignidade de um povo. Os deuses do Brasil nos ensinaram a olhar a natureza com os contornos da poesia e a delicadeza dos ritos imemoriais. Essa é a tessitura nossa de olhar o mundo.

Divinizamos os homens e humanizamos os deuses para construir uma civilização amorosa nos confins do ocidente. Em nome do oxê de Xangô, do pilão de Oxaguiã, do xaxará de Omolu e do ofá de Oxossi não há um só genocídio perpetrado na face da terra. Nunca houve qualquer guerra religiosa em que se massacraram centenas de milhares de seres humanos em nome da fé nos encantados e orixás. A insígnia de nossos deuses nunca foi a mortalha de homens comuns - nós apenas batemos tambor e dançamos, não morremos ou matamos pela nossa fé.

Eu conheci e (me) reconheci (no) meu deus enquanto ele dançava, no corpo de uma yaô, ao ritmo do vento que balançava as folhas sagradas do mariô, amansando o chão de terra batida à virada do rum. Meu general, com a majestade dos seus passos, fazia farfalhar a copa dendezeiro com a destreza de sua adaga africana. O alfanje de Ogum alumiou meu mundo.

Que cada um tenha o direito de encontrar o mistério do que lhe é pertencimento, em gentileza e gestos de silêncio, toques de tambor e cantos de celebração da vida.

Olorum Modupé, Nzambi-ampungu!

Luiz Antonio Simas, Ifábiyi.

Post original em: Histórias Brasileiras

PERIGO: O BONDE DAS DESCONTROLADAS SE PREPARA PARA A COPA

Pela primeira vez aqui no blog uso o recurso de "quibar" um texto de outrem. Ora, mas nesse caso trata-se de LUIZ ANTONIO SIMAS. E além de ser esse cara, ele ainda escreveu exatamente o post que eu queria escrever aqui (claro que muito melhor do que eu escreveria), mas taí essa pérola para os leitores do Boteco apreciarem. Só colocar no blogroll não seria suficiente...

Para ver a postagem original do Simas, recomendo fortemente visitar o blog dele, o ótimo HISTÓRIAS BRASILEIRAS, e virar seu seguidor também.
Ao contrário do Simas, não gosto de futebol, mas penso a mesma coisa sobre os torcedores(as) de plantão que surgem em época de copa. Haja paciência.
Fiquem então com o mestre Luiz Antonio Simas:


Outro dia fui a uma festa de casamento que virou, lá pelas tantas, um baile funk. Uma das pérolas do repertório - que sacudiu a rapaziada -  foi uma música [sic] com letra de grande sensibilidade poética: Elas estão descontroladas! Ah! Ah! Elas estão descontroladas!

Sim, o batidão funkeiro insistia em martelar: Elas estão descontroladas! Imediatamente, sob efeito da britadeira sonora que vitimou meus ouvidos e quase me fez enfiar a cabeça na privada,  pensei na Copa do Mundo da África do Sul e no tal do descontrole feminino. Explico a relação.
Conheço gente que tem com a lei do impedimento a mesma relação que eu tenho com a lei das órbitas elípticas de Kepler: total desconhecimento. Não obstante, essa mesma gente costuma se mobilizar para torcer pelo escrete nos mundiais com um fervor patriótico digno de um Caxias, uma Maria Quitéria, um Osório.
Duas senhoritas do colégio onde trabalho, por exemplo, foram ao mercado popular para comprar adereços auriverdes e vuvuzelas esporrentas. Querem, as meninas, se enfeitar nas cores nacionais para curtir o mundial. Travei com elas o seguinte diálogo:

- Meninas, eu não sabia que vocês gostavam tanto de futebol. Que beleza!

- Nós detestamos futebol. Mas na Copa do Mundo é outra coisa. A gente quase morre de tanto torcer pela seleção. Chorei muito e passei mal quando o Brasil perdeu pra França em 2006.

- ...

Soube hoje que uma boate de Copacabana, reduto dos gays descolados, passará os jogos em telões. A mesma coisa aconteceu na copa de 2002, quando a decisão Brasil e Alemanha, realizada às oito da matina, foi assistida pelo público alternativo numa festa com o sugestivo nome de Alvorada das loucas por um canarinho.
O fenômeno, enfim, é paradoxal e recorrente: o torcedor mais histérico em períodos de Copa do Mundo geralmente detesta futebol. A transformação é digna de um show da Konga, a mulher gorila. Mal a bola começa a rolar e  surgem os primeiros sinais de  descontrole emocional. Gritos, palavrões, pitis, piripacos, quedas de pressão e, eventualmente, desmaios, fazem parte do repertório desses futebolistas bissextos - quase sempre mulheres e bichas.
Não, não estou sendo preconceituoso. Não é preconceito - é conceito mesmo.  Já caí na esparrela de aceitar convites bem intencionados e acabar  assistindo a jogos de copa em eventos que mais pareciam micaretas. Presenciei saracoticos femininos e pelo menos uma ameaça de suicídio de um fresco. A boneca, que mal sabia que a bola é redonda, se tremelicava toda e teve que assistir ao jogo sob efeito de calmantes.

O problema é que as descontroladas não torcem; fazem performances. Se paramentam com camisas  customizadas, unhas pintadas de verde limão e amarelo ovo, purpurinas, brincos que mais parecem argolas de ginástica olímpica e declarações do tipo: ah...se não ganhar o Brasil, torço pela Itália. Os italianos são uns gatos.

Registro: estou longe de achar que futebol é coisa só pra homem. Quero crer que ninguém detesta mais esses saracoteios femininos do que as mulheres que de fato entendem do babado. Nada pior para uma mulher que gosta de futebol do que assistir os jogos na companhia das desvairadas de plantão.


É por isso que, para concluir, me declaro devidamente vacinado contra essas maluquices. Aviso aos navegantes, e juro por São Mané Garrincha, que assistirei aos jogos do escrete em petit comité. Quero estar cercado, na medida do possível, apenas de gente amiga e que acompanha futebol com alguma regularidade.

Que os deuses do futebol me mantenham longe, muito longe, desse bonde das descontroladas:

Amém.

A TRAGÉDIA E A COMÉDIA BRASILEIRA


Ontem, numa noite insone, fiquei acompanhando a programação da Rede Globo. Só consigo assistir à Globo ou qualquer outro canal após às 22 horas, que é quando o nível de bobagem já diminuiu um pouco. Desta vez  fui surpreendido por um programa que nunca tinha visto, o tal "Profissão Reporter", que é comandado pelo Caco Barcellos. É um programa jornalístico onde o experiente reporter da Globo comanda uma equipe de três profissionais recém formados que vão atrás da notícia na hora em que ela acontece, no melhor estilo "Aqui & Agora", mas com uma profundidade jornalística bem superior. Ontem o programa mostrou o "lado B" da tragédia das chuvas no Rio de Janeiro e Niterói, com o drama da busca pelos corpos nos escombros dos desabamentos e a luta das famílias no IML para a liberação dos mesmos. Como sempre, os serviços públicos, nesse caso, defesa civil e o corpo de bombeiros, mostraram os dois lados da moeda: despreparo e dedicação no atendimento às vítimas.
O tom da reportagem, apesar de mostrar cenas muito fortes e emocionantes, ficou longe do sensacionalismo. Em dado momento a jovem reporter fotográfica até disse que teve que desligar a câmera, em respeito ao sofrimento das pessoas. Louvável.
Diante de tanto sofrimento, lembrei muito das cenas do terremoto do Haiti. Como sofre esse povo, é explorado, humilhado, abandonado e agora nem tem mais onde morar.
Mas não podemos esquecer que estamos na Rede Globo e logo depois do "Profissão Reporter" vem o Jornal da Globo. E a primeira notícia, que parece até que a Cristiane Pelajo leu em tom jocoso, dava conta de que naquela edição nós conheceríamos "a nova classe-média brasileira, cheia de vontade de comprar!" Apertei "off" no controle remoto na hora e vi que tinha entendido a função do programa anterior: apenas uma vitrine, para que a classe média, a nova ou a que já está aí explorando a gente há séculos, pudesse ver  de perto o sofrimento dos míseros mortais, mantendo-se uma distância segura, como num passeio ao zoológico.
Seria uma comédia, se não fosse uma tragédia. Parabéns Rede Globo.

CAPITALISMO E ESCRAVIDÃO


Interessante a forma como as pessoas expressam sua opinião sobre os textos aqui do boteco. Elas vêm falar comigo, em vez de postar seus comentários no blog. Será timidez? Eu sempre digo: “Coloca isso lá nos comentários, pra gente iniciar um debate...”. Alguns escrevem, e me deixam muito feliz. Deixo claro, aliás, que não quero receber só elogios aqui. Caso tenham opinião, seja ela qual for, por favor, expressem-na. A casa é de vocês. Um cara que fez isso muito bem é o Fábio, do “Palavra Náufraga”. Ele achou que o comentário ficaria muito grande aqui e fez um post no blog dele abordando o mesmo tema do meu. Fiquei honrado. Valeu Fabão!

Mas o que me motivou a escrever sobre os comentários foi a opinião de algumas pessoas sobre o último post “Futuro Primitivo”, a respeito do livro de John Zerzan. Vieram me dizer que a teoria exposta no livro (sem ter lido o mesmo) é esdrúxula e absurda: “Como poderíamos viver como homens da caverna?” Tudo bem... o papai explica. John Zerzan não é para ser levado ao pé da letra (ou é?) quando ele fala sobre a sociedade que a humanidade criou nesse planeta. Ele diz, basicamente, que podemos viver sem as coisas ruins que a sociedade criou, sem necessariamente abrirmos mão das coisas boas. Isto seria, abolir a exploração da natureza e do homem pelo homem. Alguém aí pensou em capitalismo? Pois acertou! O capitalismo é um sistema economico baseado na exploração. Vamos dar uma olhada na história do capitalismo, sem considerar o saque, a escravidão e o genocídio imposto aos povos autoctones nos primeiros anos da colonização das Américas, África e Ásia pelos demais países europeus, vamos nos focar na Inglaterra e observemos como o capitalismo tem sua origem diretamente ligada, entre outros crimes, ao tráfico de escravos. Abaixo segue um trecho do livro “As Veias Abertas da América Latina” do escritor uruguaio Eduardo Galeano, publicado no início da década de 70. Leitura recomendadíssima para qualquer um que queira entender a conjuntura política e econômica mundial.

“Por volta de 1562, o capitão John Hawkins tinha arrancado 3OO negros de contrabando da Guiné portuguesa. A rainha Elizabete ficou furiosa: "Esta aventura - sentenciou - clama vingança ao céu." Porém, Hawkins contou-lhe que no Caribe havia obtido em troca dos escravos, um carregamento de açúcar e peles, pérolas e gengibre. A rainha perdoou o pirata e converteu-se em sócia comercial dele. Um século depois, o duque de York marcava a ferro quente suas iniciais, DY, sobre a nádega esquerda ou o peito dos três mil negros que sua empresa conduzia anualmente para "as ilhas do açúcar". A Real Companhia Africana, entre cujos acionistas figurava o rei Carlos II, dava 3OO% de dividendos, apesar de que, dos 70 mil escravos que embarcaram entre 168O e 1688, só 46 mil sobrevivessem à travessia. Durante a viagem, numerosos africanos morriam vítimas de epidemias ou desnutrição, ou se suicidavam negando-se a comer, enforcando-se com suas correntes ou lançando-se pela borda ao oceano eriçado por barbatanas de tubarões. Lenta porém firmemente, a Inglaterra ia quebrando a hegemonia holandesa no tráfico negreiro. A South Sea Company foi a principal usufrutuária do "direito de asiento" concedido aos ingleses pela Espanha, e nela estavam envolvidos os mais proeminentes personagens da política e das finanças britânicas: o negócio, brilhante como nenhum outro, enlouqueceu a bolsa de valores de Londres e deflagrou uma especulação legendária.

O transporte de escravos elevou Bristol, sede dos estaleiros, à categoria de segunda cidade da Inglaterra, e converteu Liverpool no maior porto do mundo. Partiam os navios com seus porões carregados de armas, tecidos e rum abençoados, quinquilharias e vidros de cores, que seriam o meio de pagamento em troca da mercadoria humana da África. Os ingleses impunham seu reinado sobre os mares. Em fins do século XVIII, África e o Caribe davam trabalho a 18O mil operários têxteis em Manchester; de Sheffield vinham os punhais e de Birmingham, 15O mil mosquetões por ano. Os caciques africanos recebiam as mercadorias da indústria britânica e entregavam os carregamentos de escravos aos capitães negreiros. Dispunham, assim, de novas armas e abundante aguardente para empreender as próximas caçadas nas aldeias. Também proporcionavam marfins, ceras e azeite de palmeira. Muitos dos escravos provinham da selva e nunca tinham visto o mar; confundiam os rugidos do oceano com os de alguns monstros submergidos que os esperavam para devorá-los ou, segundo o testemunho de um traficante da época, acreditavam, e de certo modo não se equivocavam, que "iam ser levados como carneiros ao matadouro, sendo sua carne muito apreciada pelos europeus." De muito pouco serviam os chicotes de sete pontas para conter o desespero suicida dos africanos.

Os "fardos" que sobreviviam à fome, às doenças e ao amontoamento da travessia, eram recebidos em farrapos, pura pele e ossos, na praça pública, depois de desfilarem pelas ruas coloniais ao som das gaitas. Os que chegavam ao Caribe demasiado exaustos podia-se engordá-los nos depósitos antes de exibi-los aos olhos dos compradores; os enfermos deixava-se morrer nos cais. Os escravos eram vendidos em troca de dinheiro em espécie ou promissórias de três anos de prazo. Os barcos zarpavam de regresso a Liverpool levando diversos produtos tropicais: em princípios do século XVIII, as três quartas partes do algodão fiado pela indústria têxtil inglesa provinham das Antilhas, embora logo Georgia e Louisiania se tornassem as principais fontes de abastecimento; em meados do século, havia 12O refinarias de açúcar na Inglaterra.

Um inglês podia viver, naquela época, com seis libras por ano; os mercadores de escravos de Liverpool somavam lucros anuais de mais de 1.1OO mil libras, contando exclusivamente o dinheiro obtido no Caribe e sem agregar os benefícios do comércio adicional. Dez grandes empresas controlavam um novo sistema de molhes; cada vez se construíam mais navios, maiores e de maior calado. Os ourives ofereciam "brincos e colares de prata para negros e cachorros", as damas elegantes mostravam-se em público acompanhadas de um macaco vestido de colete bordado e um menino escravo, com turbante e bombachas de seda. Um economista escreveu por esta época: o comércio de escravos é "o princípio básico e fundamental de todo o resto; como o principal impulso da máquina que põe em movimento cada roda da engrenagem (isto é, o capitalismo nascente [n. do Ganso])". Os bancos se propagam em Liverpool e Manchester, Bristol, Londres e Glasgow; a empresa de seguros Lloyd’s acumulava lucros segurando escravos, navios e plantações. Desde muito cedo, os anúncios da London Gazette indicavam que os escravos fugidos deviam ser devolvidos ao Lloyd:"s. Com fundos do comércio negro construiu-se a grande ferrovia inglesa do oeste e nasceram indústrias, como as fábricas de louças de Gales. O capital acumulado no comércio triangular - manufaturas, escravos, açúcar – tornou possível a invenção da máquina a vapor: James Watt foi subvencionado por mercadores que haviam feito assim suas fortunas. Eric Williams afirma-o em sua documentada obra sobre o tema.

Em princípios do século XIX, a Grã Bretanha converteu-se na principal impulsionadora da campanha antiescravista. A indústria inglesa já necessitava de mercados internacionais com maior poder aquisitivo, o que obrigava a propagação do regime de salários. Ademais, ao estabelecer-se o salário nas colônias inglesas do Caribe, o açúcar brasileiro, produzido com mão-de-obra escrava, recuperava vantagens por seus baixos custos comparativos. A Armada britânica lançava-se ao assalto dos navios negreiros, mas o tráfico continuava crescendo para abastecer Cuba e Brasil. Antes que os botes ingleses chegassem aos navios piratas, os escravos eram lançados ao mar: dentro só se encontrava o odor, as caldeiras quentes e um capitão que morria de rir. A repressão ao tráfico elevou os preços e aumentou os lucros enormemente. Em meados do século, os traficantes entregavam um fuzil velho por cada escravo vigoroso arrancado da África, para logo vendê-lo por mais de 6OO dólares em Cuba.”

Triste, não? Obeserva-se bem que o capitalismo, desde seu início, já mostrou a que veio: o êxito de alguns depende sempre da tragédia de outros. É assim até hoje. E dessa forma foi se definindo quem seriam os países desenvolvidos e quem seriam os subdesenvolvidos de hoje em dia. No capitalismo, o negócio sempre é feito entre exploradores e explorados (outra grande fonte de informações sobre o assunto é a série “Capetalismo” de um dos meus blogs preferidos, o Nerds Somos Nozes).
O que John Zerzan questiona nos seus escritos é se não poderíamos viver sem isso. Sem essa necessidade de agirmos sempre como predadores e presas. Um tipo de reflexão fundamental principalmente agora, em que algumas pessoas começam a atingir um nível de consciência mais elevado, o que me deixa com esperanças de um futuro diferente.
É isso aí. Acho que respondi ao que me questionaram. Peço que novos questinamentos sejam postados nos comentários, afinal, blog é pra isso, para interagir. O que eu fazia antes, nas mesas dos botecos discutindo política, música, história, religião, futebol e o escambau, agora faço aqui, no meu boteco virtual, com a vantagem de não ter que ouvir sermão da D. Maria quando chegar em casa...

Abraço a todos.

FUTURO PRIMITIVO - JOHN ZERZAN


Saudações, membros dessa nobre confraria!

Hoje vou compartilhar com vocês minhas opiniões sobre o último livro que li: Futuro Primitivo, de John Zerzan, um dos mais conhecidos autores anarquistas, considerado, ao lado de Daniel Quinn (do qual falaremos em breve), um dos expoentes da corrente de pensamento conhecida como “Primitivismo”.
John Zerzan (nascido em 1943) se destaca na segunda metade da década de 1980 enquanto filosofo e escritor de aspirações primitivistas. Seus trabalhos focam a civilização e sua inerente opressividade, defendendo formas inspiradas no modo de vida das sociedades humanas pré-históricas como modelos de sociedades plenas de liberdade. Algumas de suas críticas mais desafiadoras se estendem ao processo da domesticação, à linguagem, ao pensamento simbólico (como a matemática e a arte) e à conceituação de tempo. Seus escritos mais conhecidos são "Elementos da Rejeição" (1988), "Futuro Primitivo" (1994), "Contra a Civilização: Um Leitor" (1998) e "Correndo no Vazio" (2002).

Em "Futuro Primitivo", John Zerzan limita-se a apresentar bases científicas para seu argumento de que a invenção da agricultura e posteriormente, da civilização, foram os erros cruciais que afastaram a humanidade da sua harmonia com a natureza e nos trouxeram ao atual estado de deterioração do meio ambiente, desigualdade, alienação e concentração de poder. O autor analisa várias pesquisas feitas por arqueólogos e antropólogos (citando a fonte da cada uma), estas últimas, realizadas junto às populações remanescentes dos chamados “caçadores-coletores” em diversas partes do mundo.

Não se trata de nenhuma utopia delirante ou ingênua, como pode parecer a primeira vista, pois John Zerzan defende seus argumentos com fatos incontestáveis. É no mínimo um exercíco interessante imaginar uma vida mais simples e, portanto, mais plena, como a dos primeiros seres humanos, há milhões de anos. Como diz o autor em certo trecho: “Definir um mundo desalienado seria impossível, inclusive indesejável, mas podemos e devemos tentar desmascarar o não-mundo de hoje em dia e como chegamos a ele. Temos tomado um caminho monstruosamente errado com a cultura simbólica e a divisão do trabalho, de um lugar de entendimento, encanto, compreensão e totalidade para a ausência que nos encontramos, no coração da doutrina do progresso. Vazia e cada vez mais vazia, a lógica da domesticação, com suas exigências de total dominação, nos mostram a ruína de uma civilização que arruína todo o resto. Presumir a inferioridade da natureza favorece a dominação de sistemas culturais que logo tornarão a Terra um lugar inabitável.
O livro inclui ainda uma entrevista concedida pelo autor ao Coletivo Erva Daninha, onde ele esclarece melhor ao leitor sobre o pensamento primitivista: “O agravamento da situação para a biosfera, a sociedade, e o indivíduo – a crise em todos os níveis – é o mais forte ímpeto para o repensar de tantas velhas suposições triviais e instituições. Divisão do trabalho, domesticação, até mesmo os componentes de nossa cultura simbólica e a própria civilização – tudo isso agora encontra-se com pontos de interrogação. Quando a negação começar a desabar, nós bem que poderemos ver um desafio à ordem existente que fará o movimento dos anos 60 parecer muito superficial e sem graça.

Recomendo a leitura aos frequentadores do Boteco. Estou disponibilizando uma versão em PDF, digitalizada pelo pessoal do saudoso Coletivo Sabotagem (alguém sabe por onde anda essa turma? Os links não funcionam mais...). Para fazer o download é só clicar no link a seguir. E boa leitura!

ALMA PARA A SOUL MUSIC



É interessante a forma como certos artistas chamam a sua atenção, mas você fica um bom tempo a procura de material referente a ele sem encontrar quase nada. A internet e seus 4-shared, pirate bay e outros torrents da vida estão me ajudando a botar em dia muitos assuntos pendentes nesse sentido. Um desses assuntos atende pelo nome de Curtis Mayfield.

Sempre ouvi muita coisa do cara, muitas referências a ele, samplers de suas musicas em diversos discos, de Beast Boys a Snoop Doggy Dogg, passando por Racionais MC's. Além disso, conheço bem o trabalho de outros artistas que foram diretamente influenciados por ele, como Prince, Jamiroquai, Sly & The Family Stone (pra ficar nos mais óbvios). Mas disco do cara mesmo, conhecia só um: "Superfly" (que foi trilha sonora do filme de mesmo nome) e algumas músicas em coletâneas da Gravadora Rhino.

Pois então, fuçando em sites de torrents por aí, eis que me deparo com uma coletânea exclusiva dele, "The Very Best Of Curtis Mayfield", que cobre quase todas as fases de sua brilhante carreira solo, e que foi lançada pela Rhino em 1997, talvez pegando carona no lançamento de seu último álbum "New World Order" no mesmo ano. O músico viria a falecer em 1999.

Se você quer saber mais sobre a biografia do cantor, vá até a página sobre ele na Wikipédia. Aqui falaremos da música.

No panteão dos grandes nomes da Soul Music, muitas vezes esse cantor, produtor, compositor e multi-instrumentista vem sendo renegado. Tipo de injustiça comum no showbizz. Com vinte e três álbuns de estúdio e mais quatro ao vivo, tendo produzido discos de outros artistas do naipe de Aretha Franklin, a qualidade do seu trabalho é inegável.

Além da habilidade como instrumentista, a sensibilidade da sua bela voz e a genialidade das canções (sendo um dos primeiros a abordar temas sociais dos guetos negros norte-americanos), Curtis Mayfield vem influenciando gerações de músicos, ligados à música negra ou não, no mundo todo.

Nesse "The Very Best Of", encontramos o Curtis Mayfield recém saído dos The Impressions, começando em grande estilo sua carreira solo nos anos 70 e o Curtis Mayfield no auge da carreira com "Superfly". Os arranjos precisos (ele sabia fazer bom uso da percussão e do nipe de cordas como ninguém no Soul), as letras engajadas e a voz envolvente que fizeram de Curtis Mayfield um dos artistas negros mais respeitados de todos os tempos estão presentes nessa coletânea.

Pois bem, nobres amigos de botequim, se vocês ainda não conhecem o som desse mestre do Soul de alma iluminada, essa coletânea é um bom começo. Onde baixar? Clique aqui e vá direto ao Pirate Bay, o melhor site de torrents que existe, e divirta-se. E se alguém pegar mais algum disco dele, faça o favor de deixar o link nos comentários.

Valeu e até o próximo post.

EM QUEM NÃO VOTAR


Pois é! 2010 é ano eleitoral. E como sempre, aquele mesmo bando de canalhas que rouba, engana, corrompe e faz o diabo quando está no poder, se converte em singelos anjinhos barrocos, com fala mansa e olhar amigável, prometendo mundos & fundos e pedindo em troca a sua alma o seu voto. Só que comigo não, violão! A gente não está com a bunda exposta na janela!
Pelo menos quem freqüenta nosso boteco vai estar com a lista dos pilantras na palma da mão. É que eu recebi uma lista com os nomes de 155 políticos que estão ligados a processos na justiça ou têm notório envolvimento em falcatruas por aí a fora, ou seja: têm o nome sujo na praça. Pode ser que alguns dos casos nem tenham ido a julgamento ainda e por isso devemos sempre ter em mente a presunção de inocência dos acusados, que é direito constitucional, mas todos os casos foram amplamente divulgados nos meios de comunicação. E se eles puderam divulgar, eu posso aqui relembrar. A memória do povo é curta e sempre tem aqueles canalhas que conseguem ser reeleitos, reforçando em nós o sentimento de impunidade...
A lista está no link abaixo e é um documento colaborativo. Qualquer um pode editar. Portanto, se alguém lembrar de algum nome que não esteja nela, pode incluir lá (mas tem que ser um caso notório, de ampla divulgação nos meios de comunicação, não valem acusações absurdas, tipo "fulano é bicha", "beltrano me passou a perna"... não me compliquem).

Para ver/editar a lista, clique aqui: Em quem não votar em 2010.

E divulguem para os seus amigos e parentes. Não vamos cair no caô desses malandros mais uma vez!

E tenho dito!

Ps. A charge acima é do grande Gilmar Barbosa, um dos maiores cartunistas políticos do Patropi.

UPDATE: Me ocorreu agora que algum dos contemplados da nossa ilustre lista pode, ele mesmo ou algum agregado, acessá-la e apagar de lá a linha correspondente ao seu nome. Se fizer isso, vai perder seu tempo, pois eu tenho o back up, e ainda vai queimar mais ainda seu filme, pois farei questão de falar isso no blog. Vamos lá galera. Vamos fazer crescer esse rol para ver a que número chega até a eleição.

LEMBRANÇAS DE HÉLIO DE ASSIS


Olá, amigos...

Mais de um mês de ausência e aqui estou eu. A vida andou meio atribulada nesse início de ano. Muitos compromissos, muitas perspectivas, alguns problemas e muita coisa boa também.

Mais uma vez passaram-se alguns feriados e eu não consegui visitar minha querida avó Zélia, chamada carinhosamente por todos de "Vó Leléia" e que vive em Mendes. Vó perdoe esse seu neto desnaturado. Prometo ir até aí em breve.

Nesse início de ano lembrei muito de meus avós maternos: A Vó Leléia e meu querido avô Hélio, já desencarnado.

Na virada do ano, na casa do querido amigo Tião em Juparanã, tivemos, a Paulinha e eu, oportunidade de assistir um devedê com gravações antigas do programa Viola Minha Viola, aquele com a Inezita Barroso e que passa até hoje na TV Cultura.

Que saudade me deu do meu avô! Lembro-me, das vezes em que íamos visitá-lo no Bairro do Oscar Rudge, zona rural de Mendes, de quando ele se sentava à noite, na varanda da casa de onde se tinha vista para o "caminho", com seu copo de café e seu antigo rádio à pilha, que sempre tocava pérolas do cancioneiro caipira.

Meu avô era um homem belíssimo, de voz muito grave e um respeitável bigode branco. Todos na pequena localidade gostavam dele e por às vezes acompanha-lo pelos botecos da área, eu fiquei conhecido, até hoje, como "o neto do Seu Hélio".

Era também um exímio caçador. Usava esparrelas para apanhar gambás, que preparava como ninguém (acreditem, a carne é muito saborosa) e sabia apreciar uma boa cachaça. Apesar da fama de bravo, estava sempre com ótimo astral e além da música caipira, gostava muito de ouvir também o Dicró, cujas rimas completava com sonoros palavrões.

Era uma pessoa muito simples, mas cultivava uma sabedoria, um conhecimento do mundo que ele fazia questão de dividir com todos a sua volta. Que saudade sinto da época em que tive a honra de conviver com o Sr. Hélio de Assis. Vô, espero lhe reencontrar algum dia.

Ficou pessoal e nostálgico esse post, né não? Mas fazer o quê? É assim que eu estou me sentindo. Esse espaço acaba sendo também uma forma de auto-análise...

Na imagem aí em cima, uma foto de satélite tirada do G. Maps do Bairro do Oscar Rudge, em Mendes. A casa da minha avó é a de telhado mais escuro, no canto superior direito (clique na imagem para um zoom gigante).
Quantas lembranças...

Até!

PIOR QUE WATERGATE


Estou lendo nesse momento um livro surpreendente. "Pior que Watergate", escrito por John Dean, um ex-funcionário da presidência no período Nixon que assistiu de muito perto o escândalo ao qual se refere o título, trata das maquinações da dupla de fanfarrões Bush/Cheney com seu "plano de dominação mundial" à lá Dr. Evil ou Pink & Cérebro.

É incrível o poder que o vice (ou co-presidente, como diz o livro) Dick Cheney tem no que se refere à política externa e assuntos estratégicos dos Estados Unidos. E não é de agora... a coisa vem desde a época do Reagan... Eu diria, sem medo de equívoco que Cheney é hoje o homem mais poderoso do mundo. Quanto a Bush... é apenas um patético caipira que nunca teria competência para governar seu país. É apenas um testa de ferro de um grupo de ulta-conservadores que pretende se perpetuar no poder para construir o que eles chamam de Império Norte Americano (já viram essa história? Qualquer semelhança com o III Reich não é mera coincidência). Eles têm até um relatório, publicado em setembro de 2000 que define bem suas idéias chamado Rebuilding America's defenses: strategy, forces and resources for a new century (Reconstruindo as defesas americanas: estratégia, força e recursos para um novo século). Uma espécie de cartilha do domínio do mundo pelos E.U.
O pior é que parece que se o tal McCain ganhar, esse tipo de escroque vai continuar dando as cartas na Casa Branca... E por falar em McCain, esse também já sofreu na mão da dupla Bush/Cheney... segundo o livro, nas eleições primárias em fevereiro de 2000, em que Bush disputava a vaga de candidato do partido republicano com o McCain, os partidários do primeiro lançaram uma bateria de boatos falsos para desmoralizar o segundo, tipo espalhar que McCain era gay, depois, que ele era um garanhão que havia traído a primeira mulher, depois veio um panfleto dizendo que a segunda mulher dele, Cindy era viciada em drogas (a mulher era viciada em analgésicos), e quando nada disso funcionou, espalharam que McCain era louco por ter ficado muito tempo como prisioneiro de guerra em Hanói... mas a cartada final veio quando eles fizeram circular entre os filhos e filhas da Confederação, nas áreas rurais, uma fotografia da filha adotiva de McCain, uma linda garota de pele escura nascida em Bangladesh. Graças a Ku Klux Klan, Bush bateu seu único rival republicano, que agora, oito anos depois, está de braços dados com ele na corrida até a presidência. É de embrulhar o estômago de um abutre...
Prá vocês verem como a eleição nos E.U. é tão importante para nós quanto as daqui... no Brasil só vamos escolher aqueles que ficarão nos roubando e armando esquemas por mais 4 anos (com raras e gratas exceções, diga-se de passagem) enquanto por lá, o povo pode escolher aqueles que selarão de vez o destino desse planeta, trasformando o mundo numa barbárie ou mandando essa joça de vez pelos ares... é de gelar o sangue!
Para quem se interessar, é possível encontrar o livro em sebos por um preço bem legal (é de 2004). O meu, comprei por R$ 5,00 no Ed. Redondo. Mas para quem não está a fim de procurar, achei no mercado livre por R$ 19,00. Segue o link: http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-74771671-pior-que-watergate-politica-_JM
Abraço e até nossa próxima cervejinha com direito a bate papo...

Mercado Livre

"Quando o processo histórico se interrompe... quando a necessidade se associa ao horror e a liberdade ao tédio, a hora é boa para abrir um bar."
W. H. Auden